Um olhar da Psicologia Analítica sobre adolescentes LGBTQIAPN+, pertencimento e expectativas familiares
Há momentos em que aquilo que os pais imaginavam para um filho encontra uma realidade diferente. Quando um adolescente revela aspectos importantes de sua identidade, a família também pode ser convidada a rever expectativas, crenças e imagens construídas ao longo do tempo.
Essa experiência pode assumir contornos particulares quando falamos de adolescentes LGBTQIAPN+. Em 2023, ao concluir a graduação em Psicologia, um Trabalho de Conclusão de Curso investigou uma pergunta que continua relevante:
O que acontece dentro de uma família quando um adolescente revela uma parte de si que não corresponde àquilo que a família imaginava?
Naquele momento, a pesquisa buscou compreender como os conflitos familiares poderiam repercutir na saúde mental de adolescentes LGBTQIAPN+. A revisão realizada apontou, entre outros aspectos, rejeição, falta de apoio, violência e dificuldade de acolhimento como elementos que podem aumentar a vulnerabilidade desses adolescentes.
Três anos depois, esse mesmo tema pode ser revisitado por outro caminho.
Desta vez, porém, a pergunta não está apenas naquilo que acontece entre o adolescente e sua família. Está também naquilo que pode se movimentar dentro de cada um quando a pessoa que amamos deixa de corresponder à imagem que construímos sobre ela.
É justamente nesse ponto que a Psicologia Analítica, de inspiração junguiana, oferece uma lente interessante.
Não para explicar a orientação sexual ou a identidade de gênero, mas para pensar sobre expectativas, pertencimento, persona, sombra, projeções e individuação.
🧩 Quando nasce o filho imaginado
Toda família constrói, de alguma maneira, imagens sobre seus filhos.
Antes mesmo de a criança nascer, podem surgir expectativas: como será, com quem se parecerá, que profissão terá, que valores seguirá, como constituirá sua própria família.
Algumas dessas expectativas são conscientes. Outras, porém, permanecem tão incorporadas à cultura familiar que, com o tempo, passam a parecer naturais, como se fossem simplesmente parte do que significa ser pai, mãe ou filho.
Existe, por exemplo, uma imagem socialmente difundida de como deve ser um homem, uma mulher, um casal e uma família. O Trabalho de Conclusão de Curso que escrevi em 2023 já apontava como a instituição familiar foi historicamente atravessada por modelos patriarcais e heteronormativos, estabelecendo expectativas sobre papéis de gênero e relacionamentos.
Entretanto, o problema pode surgir quando confundimos a imagem que construímos com a pessoa real. Afinal, o filho imaginado pertence ao campo das expectativas. O filho real pertence à vida. E, muitas vezes, a vida não corresponde às imagens que construímos sobre ela.
🎭 A persona: os papéis que aprendemos a desempenhar
Na Psicologia Analítica, Jung utiliza o conceito de persona para se referir à maneira como nos apresentamos ao mundo e aos papéis que assumimos nas relações sociais. A persona participa da adaptação do indivíduo ao mundo e, portanto, não significa simplesmente algo falso ou negativo.
Todos nós desempenhamos diferentes papéis. Somos profissionais, filhos, pais, amigos, parceiros, estudantes. Em cada contexto, determinados aspectos de nós mesmos encontram expressão.
Entretanto, a dificuldade pode aparecer quando o papel se torna rígido e passa a ocupar o lugar da própria pessoa.
Isso também pode acontecer dentro da família.
Antes mesmo de o adolescente conseguir expressar quem é, pode existir uma narrativa previamente construída sobre ele: o filho que seguirá determinada profissão, a menina que se comportará de determinada maneira, o homem que deverá corresponder a certas expectativas, a família que seguirá um caminho considerado adequado.
Quando a realidade rompe essa imagem, porém, não é somente o adolescente que precisa lidar com essa mudança.
A família também é convocada a rever a própria imagem.
👩👧 Quando o filho real encontra o filho imaginado
Podemos pensar em diferentes situações.
💼 O filho que deveria seguir uma determinada profissão, porque a família construiu para ele uma trajetória considerada segura ou bem-sucedida.
🎓 O adolescente que deveria corresponder a determinadas expectativas escolares, como se seus resultados fossem uma medida de seu valor.
👩👧 A filha que deveria ocupar um determinado lugar na família, seguindo um modelo de comportamento associado ao que seus pais esperavam de uma menina.
🏳️🌈 O adolescente LGBTQIAPN+ que revela sua orientação sexual ou identidade de gênero, confrontando expectativas familiares relacionadas a relacionamentos, gênero e futuro.
Essas situações não são equivalentes entre si. No entanto, todas podem provocar um encontro entre aquilo que a família imaginou e aquilo que a pessoa revela sobre si mesma.
É justamente nessa diferença que podem surgir perguntas importantes.
🌑 Quando a diferença encontra a sombra
É nesse ponto que o conceito junguiano de sombra pode abrir outra possibilidade de reflexão.
Em Aion, Jung dedica um dos capítulos iniciais à sombra, conceito relacionado a aspectos da personalidade que a consciência reconhece pouco ou afasta.
Aquilo que não conseguimos reconhecer em nós mesmos pode ganhar intensidade quando o encontramos no outro.
Ainda assim, isso não significa afirmar que toda reação familiar diante de um filho LGBTQIAPN+ seja resultado de uma “sombra”. Seria uma interpretação excessivamente simplificadora.
Por isso, a pergunta pode ser outra:
O que uma diferença desperta em nós quando ela confronta aquilo que aprendemos a considerar certo, esperado ou normal?
Uma reação pode envolver medo, vergonha, insegurança, receio do julgamento social ou antigas crenças que nunca chegaram a ser questionadas.
Além disso, em algumas situações, conteúdos pouco conscientes podem encontrar justamente naquela diferença um ponto de tensão.
Além disso, olhar para a família também significa considerar a cultura que a atravessa.
Nem todo preconceito começa dentro de casa. Muitas vezes, ele chega até a casa por meio de discursos sociais, culturais, religiosos e familiares transmitidos ao longo de gerações.
Aquilo que foi aprendido pode parecer tão natural que deixa de ser percebido como aprendizado.
🌱 Quando pertencer significa esconder uma parte de si
A adolescência é marcada por transformações importantes. O corpo muda, as relações se ampliam, novas referências aparecem e o jovem começa a construir uma percepção mais própria sobre quem é, o que deseja, no que acredita e que lugar deseja ocupar no mundo.
Para adolescentes LGBTQIAPN+, essas questões também podem trazer uma pergunta adicional:
“Posso ser quem sou e continuar pertencendo?”
Quando existe medo de rejeição, alguns adolescentes podem esconder aspectos importantes de si. Isso não significa necessariamente que não saibam quem são. Em determinadas circunstâncias, o silêncio pode estar relacionado à necessidade de avaliar se o ambiente ao redor é suficientemente seguro para acolher aquilo que será revelado.
Nesse contexto, o silêncio pode assumir diferentes sentidos: proteção, cautela, preservação de um vínculo ou tentativa de permanecer em um espaço percebido como necessário.
Por isso, não podemos confundi-lo automaticamente com ausência de sofrimento.
🤝 A família também pode sofrer diante daquilo que não compreende
Falar sobre adolescentes LGBTQIAPN+ e família, portanto, não deveria significar simplesmente colocar a família no lugar de “vilã”.
Essa leitura seria insuficiente.
Pais e mães podem reagir a partir do medo, do desconhecimento, de crenças profundamente arraigadas e da dificuldade de elaborar a distância entre o filho que imaginaram e a pessoa que encontram diante de si.
Isso não torna a rejeição aceitável.
Ainda assim, compreender uma reação é diferente de justificá-la.
Uma família pode estar sofrendo e, ao mesmo tempo, produzir sofrimento. Pode amar e ferir. Pode desejar proteger e, ainda assim, agir de maneira que aumente a vulnerabilidade do adolescente.
É justamente por isso que o cuidado psicológico precisa considerar a complexidade dos vínculos.
O adolescente não deveria carregar sozinho a tarefa de transformar toda a família. A família, por sua vez, pode precisar de espaço para elaborar seus próprios medos, perdas simbólicas e expectativas.
Não devemos atribuir as dificuldades de saúde mental observadas entre jovens LGBTQ+ à orientação sexual em si. Elas precisam ser compreendidas também à luz das experiências de preconceito, discriminação e das condições sociais em que esses jovens vivem.
Nesse sentido, o apoio de pessoas significativas pode funcionar como importante contraponto a essas experiências.
🧭 Individuação: tornar-se quem se é
A partir desse ponto, a perspectiva junguiana oferece uma contribuição particularmente interessante para essa discussão.
Individuação não significa isolamento.
Na Psicologia Analítica, a individuação está relacionada ao desenvolvimento da personalidade e à diferenciação do indivíduo em relação às identificações coletivas, favorecendo uma relação mais consciente entre os conteúdos conscientes e inconscientes da psique.
Pensar a adolescência a partir dessa perspectiva não significa dizer que o jovem precisa romper com sua família para ser ele mesmo.
Pode significar reconhecer um movimento de diferenciação no qual ele começa a perceber que não é apenas aquilo que os outros esperam.
Assim, surge a possibilidade de reconhecer pensamentos próprios, valores, desejos e modos particulares de estar no mundo.
Esse processo pode provocar conflitos, especialmente quando a família encontra dificuldade para acompanhar essa diferenciação.
Uma relação pode se transformar sem necessariamente desaparecer.
🌿 Diferenciar-se sem deixar de pertencer
Para um adolescente, construir uma identidade própria não significa necessariamente abandonar suas relações.
Da mesma forma, para uma família, reconhecer que o filho está se tornando uma pessoa singular não precisa significar perder esse filho.
Pode significar aprender a conhecê-lo para além das imagens construídas anteriormente.
Nesse sentido, o desenvolvimento da autonomia e a preservação dos vínculos não precisam ser movimentos opostos.
👂 O que acontece quando a família consegue escutar?
Uma das mudanças mais significativas pode estar na pergunta que orienta a relação.
Em vez de:
“Como faço para que meu filho volte a ser aquilo que eu imaginava?”
pode surgir:
“Quem é essa pessoa que está diante de mim e o que ainda não conheço sobre ela?”
Essa mudança, portanto, pode ser profunda.
O adolescente deixa de ocupar o lugar de problema a ser corrigido e passa a ser reconhecido como sujeito a ser conhecido.
Isso não significa que os pais precisem compreender tudo imediatamente. Ninguém precisa dominar todos os conceitos sobre sexualidade e gênero para oferecer acolhimento.
É possível dizer:
“Eu ainda não entendo tudo, mas quero entender.”
“Tenho medo, mas não quero que você tenha medo de mim.”
“Preciso de tempo para elaborar, mas continuo aqui.”
São frases simples, mas podem abrir espaço para um diálogo que a rejeição tende a interromper.
As orientações de saúde pública também apontam para a importância de relações seguras e de apoio no desenvolvimento dos adolescentes. A família e outros adultos significativos podem contribuir para a criação de ambientes mais seguros e acolhedores.
Isso não significa que a família seja a única responsável pela saúde mental de um adolescente. Mas reforça algo que já aparecia na pesquisa que realizei em 2023: o ambiente relacional importa.
💭 Talvez o primeiro passo seja abandonar a ideia de que existe algo a ser corrigido
Quando um adolescente revela sua orientação sexual ou identidade de gênero, algumas famílias podem se perguntar:
“Por que isso aconteceu?”
“Será que fiz alguma coisa errada?”
“Será que é uma fase?”
“Como posso mudar isso?”
Muitas dessas perguntas podem nascer do medo e da falta de informação.
Existe, porém, outra possibilidade:
“Como posso continuar sendo família enquanto conheço melhor quem meu filho está se tornando?”
Dessa forma, a pergunta desloca o foco.
Não se trata de corrigir uma identidade.
Trata-se de sustentar um vínculo.
E sustentar um vínculo não exige compreender tudo imediatamente ou ter todas as respostas. Significa não transformar a diferença em ameaça.
🌼 O que permanece dessa reflexão
Ao revisitar essa reflexão, algumas questões permanecem atuais.
A família continua sendo um dos primeiros espaços de pertencimento.
A adolescência continua sendo um período importante de desenvolvimento.
A rejeição pode produzir sofrimento.
E o acolhimento continua sendo fundamental.
Ainda assim, a perspectiva junguiana acrescenta uma pergunta que considero especialmente importante:
O que acontece com a família quando o processo de diferenciação de um de seus membros desafia as imagens conscientes e inconscientes que sustentavam aquele grupo?
Nesse sentido, parte do trabalho não é apenas ajudar o adolescente a encontrar sua própria voz. Pode ser também ajudar a família a escutar aquilo que essa voz movimenta dentro dela.
Além disso, algumas vezes, aquilo que parece ser apenas um conflito entre pais e filhos é também o encontro entre o novo e o conhecido, entre a vida que se apresenta e as imagens que precisam ser revistas.
Amadurecer, para uma família, pode significar aprender que amar alguém não exige permanecer fiel à imagem que construímos sobre essa pessoa.
Significa permitir que ela exista.
📝 Para pensar
Talvez você tenha um filho LGBTQIAPN+. Talvez seja mãe, pai, avó, avô ou profissional que acompanha adolescentes. Ou talvez este texto tenha apenas despertado uma pergunta sobre as expectativas que carregamos em relação às pessoas que amamos.
Quanto daquilo que espero de alguém pertence realmente a essa pessoa e quanto pertence às imagens que construí sobre ela?
Essa pergunta não precisa ser respondida rapidamente.
Algumas perguntas precisam primeiro encontrar espaço dentro de nós.
Naquele momento, em 2023, minha pesquisa apontou para a necessidade de ampliar o cuidado e a compreensão sobre os impactos dos conflitos familiares na saúde mental de adolescentes LGBTQIAPN+.
Hoje, ao revisitar aquele trabalho pela perspectiva da Psicologia Analítica, eu acrescentaria:
quando conseguimos olhar para aquilo que não compreendemos sem imediatamente tentar eliminá-lo, abrimos espaço para que algo novo possa nascer.
Não se trata de apagar a diferença ou negar o conflito. Trata-se de aprender, pouco a pouco, a fazer lugar para aquilo que ainda não conhecíamos.
E, às vezes, fazer lugar para o outro também significa ampliar o lugar que existe dentro de nós.
FAQs❓Dúvidas frequentes sobre adolescentes LGBTQIAPN+, família e Psicologia Analítica
O que a Psicologia Analítica pode acrescentar à compreensão da adolescência LGBTQIAPN+?
A Psicologia Analítica pode oferecer uma perspectiva para refletir sobre identidade, pertencimento, expectativas familiares, persona, sombra, projeções e individuação.
Essa abordagem não busca explicar a orientação sexual ou a identidade de gênero, mas compreender os movimentos psíquicos e relacionais que podem surgir diante dessas experiências.
A família precisa compreender tudo imediatamente?
Não. A compreensão pode ser construída ao longo do tempo. O acolhimento, porém, não precisa esperar que todas as dúvidas sejam respondidas. Escutar, respeitar e preservar o vínculo podem ser primeiros movimentos importantes.
O que é o “filho imaginado”?
O filho imaginado corresponde às expectativas, imagens e possibilidades que os pais e a família constroem sobre uma criança antes e ao longo de seu desenvolvimento.
Essas imagens fazem parte da experiência familiar. Entretanto, podem entrar em conflito com a pessoa real quando ela passa a revelar aspectos de si que não correspondiam ao que havia sido imaginado.
O que é persona na Psicologia Analítica?
A persona é a maneira como nos apresentamos ao mundo e os papéis que assumimos nas relações sociais. Ela participa da adaptação à vida coletiva e não deve ser entendida simplesmente como algo falso ou negativo.
A dificuldade pode surgir quando uma pessoa se identifica rigidamente com determinado papel e perde contato com outros aspectos de si.
O que significa falar em sombra nesse contexto?
Na Psicologia Analítica, a sombra está relacionada a aspectos da personalidade que permanecem pouco reconhecidos pela consciência ou foram afastados dela. No contexto familiar, esse conceito pode abrir possibilidades de reflexão sobre aquilo que determinadas diferenças despertam em nós. Entretanto, não é adequado afirmar que toda reação familiar diante de um adolescente LGBTQIAPN+ seja necessariamente uma manifestação da sombra.
O que é individuação?
Na Psicologia Analítica, individuação é um processo de desenvolvimento da personalidade e de diferenciação em relação às identificações coletivas. Na adolescência, essa perspectiva pode ajudar a compreender o movimento pelo qual o jovem começa a reconhecer seus próprios valores, pensamentos e modos de estar no mundo. Individuação não significa isolamento ou rompimento com a família.
O adolescente precisa se afastar da família para construir sua identidade?
Não necessariamente. Diferenciar-se e construir uma identidade própria não significa obrigatoriamente romper vínculos. Ao contrário, uma relação familiar pode encontrar novas formas de existir à medida que seus membros reconhecem a singularidade uns dos outros.
⚖️ Nota ética sobre exemplos clínicos
Este artigo possui caráter informativo e reflexivo. Os exemplos deste artigo têm finalidade exclusivamente didática e não correspondem a casos clínicos reais.
Este artigo não apresenta a orientação sexual e a identidade de gênero como problemas psicológicos. As reflexões sobre saúde mental consideram, sobretudo, a influência das experiências relacionais e sociais, como rejeição, discriminação, violência e falta de apoio.
O conteúdo não substitui acompanhamento psicológico individualizado.
🌿 Um convite à reflexão
Se esta reflexão despertou novas perguntas sobre identidade, pertencimento, família ou sobre a forma como construímos imagens das pessoas que amamos, talvez valha a pena continuar esse diálogo.
O Psique nas entrelinhas reúne outras reflexões sobre Psicologia, autoconhecimento e a experiência humana a partir do olhar da Psicologia Analítica.
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REFERÊNCIAS
AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION (APA). Understanding sexual orientation and homosexuality. Washington, DC: American Psychological Association.
JUNG, C. G. Aion: researches into the phenomenology of the Self. Princeton: Princeton University Press, 1959/1969. In: The Collected Works of C. G. Jung, v. 9, pt. 2.
JUNG, C. G. Two essays on analytical psychology. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1966. In: The Collected Works of C. G. Jung, v. 7.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Promoting adolescent well-being. Geneva: World Health Organization, 2026.


